Lugares do passado
Domingo costuma ser o dia mais melancólico da semana para mim. Eu nasci em um domingo. Minha mãe contava que vim ao mundo às 17 horas e 10 minutos. Seja de manhã, à tarde ou à noite, sinto um quê de tristeza, embora seja pouca e, às vezes, sutil; basta eu olhar para algo e já vou logo me lembrando de coisas passadas e que foram desfrutadas por mim em certa época da vida, tenha sido coisa boa ou ruim.
Neste penúltimo domingo do mês, em que se completaram 12 anos do retorno de minha mãe à Pátria Espiritual (mais precisamente na segunda-feira passada), ao caminhar pelo bairro onde moro, eu a vi, a senti em algumas paisagens.
Moro no alto de uma rua íngreme e, para ir à padaria, vou caminhando pela rua asfaltada (aquela onde moro, não é…) onde passam os ônibus que atendem ao bairro e vão mais além. Neste domingo, para esperar a travessia, ao retornar da padaria, eu me peguei admirando o contorno das serras, que se destacam na linha do horizonte.
Bastou me deter por alguns minutinhos para ter a sensação de um retorno aos passeios da infância, pobre, porém vivida como criança gosta: pés no chão, toalha xadrez sobre a grama e, no pano, poucas, mas apetitosas guloseimas para o paladar nada exigente de quem ainda não conhecia sabores de outras culturas. Muitas árvores, riacho correndo, seixos de variados tamanhos e alguns com um orifício por onde a água passa depois de muito insistir para ter esse novo caminho.
Idas à cidade Rio Acima com minha mãe e a comadre dela com o filho, que é somente um ano mais novo que eu. Como nos divertíamos! Subíamos em árvores, descíamos correndo e nem sei mais como conseguíamos tanta proeza… Pés e roupas molhados e imundos, mas a alma lavada. Era assim que voltávamos todos para casa, já na expectativa antecipada do próximo passeio.
O passeio seguinte era para Curvelo. Diferente do anterior, não tinha pouca gente e nem riacho. Mas uma ruma de crianças, parentes nem me lembro de quem, provavelmente, primos dos primos, mas com os quais eu me esbaldava e podia dormir por três dias e noites seguidos que não me arrependeria do tanto que tinha corrido, gritado e me esfolado em cactos, espinhos de ora-pro-nobis e uma queda ou outra durante a subida de algum barranco para fugir das perseguições que empreendíamos entre nós. Nem mesmo no horário em que todos os adultos saíam para gritar nossos nomes, nós deixávamos de correr uns atrás dos outros. Quanta infância, quanta alegria. Comida boa e farta, servida sem parcimônia, o que também contribuía para a alegria generalizada. Os mais novinhos iam para o cochilinho depois da refeição; já os maiores (mesmo que pouca coisa), continuavam com os folguedos, embora a correria amenizasse bastante.
Já a ida para Paraopeba era em companhia do meu pai e, portanto, sem correria, sem gritaria, sem farra; apenas uma bonequinha – caindo aos pedaços – nas mãos e uns cochichos com ela, dizendo aquilo que me vinha à cabeça. Mas valia a pena a paisagem e ver o sol se pondo quando retornávamos, cansadas – minha bonequinha e eu – de tanto ver o mundo lá fora passar rapidamente.
Também em companhia dos meus pais eram – eventualmente – as idas à cidade de Lagoa Santa que, àquela época, parecia ser muito distante. A lagoa que tinha até uma “prainha”, era lugar garantido de um piquenique com direito a comer o delicioso quibe, que vendiam nas imediações, e não sei mais dizer se em um restaurante ou algum vendedor (ou vendedora) ambulante. Mas que era maravilhoso, lá isso era! Merecia até elogio de meu pai, geralmente, parco nesse quesito: falar bem de comida alheia, uma vez que ele era um excelente cozinheiro. Mas dessas idas a Lagoa Santa, a do passado, também me vêm à memória as poucas vezes em que estivemos os três 100% harmonizados e felizes; minha mãe jogando peteca e rindo, meu pai compactuando da alegria dela e, também, da minha. Chegou, certa vez, até a comprar uma pulseirinha para mim numa das lojinhas do centro comercial da cidade, ainda pouco próspero àquela época. Usei por muitos anos, até não me servir mais e eu (ou minha mãe!) doar. Ela era quem mais se comprazia em doar as minhas coisas, inclusive, inúmeras vezes sem minha autorização… Mas isso é história para outra ocasião!
Ouro Preto! Ah! Inegável e inigualável se estar em uma cidade histórica como essa, pela primeira vez e sozinha!! Pasme! Isso mesmo! Eu tinha apenas 11 anos… Sozinha no sentido de estar desacompanhada de pai e de mãe; porém, com a turma do colégio e um adulto responsável. A melhor cidade da época, o passeio mais incrível, as visitas aos museus inesquecíveis… Sempre um lugar do passado que, mesmo ali retornando, tempos depois, com namorado, com amigos, com hóspedes, com alunos ou, inclusive, sozinha para participar de festivais de inverno, jamais voltou a ter aquela mesma cor, aquela mesma luz, aquele mesmo sabor…
Vou encerrar este texto com as inúmeras idas à Serra da Piedade. Sempre no mês de agosto. Aliás, detestado por minha mãe. Íamos sempre em romaria, em especial da igreja do bairro onde vivíamos. Levávamos o que iríamos comer e beber, para ficar mais econômico e, também, mais rápido, porque naqueles tempos, não havia uma infraestrutura compatível com as caravanas que chegavam em grande quantidade e tudo ficava mais demorado em relação ao atendimento. Eu sentia um prazer indizível com o vento frio e, muitas vezes, até a intensa neblina no rosto, nos cabelos. As nuvens iam se dissipando aos poucos, mas à medida que subíamos a serra, eu me sentia como um verdadeiro anjinho, pois elas se posicionavam abaixo dos meus pés. Nesses momentos, minha mãe ficava quase histérica, gritando para que eu não me aproximasse da borda da estradinha íngreme e de terra batida. Óbvio que eu lhe dava ouvidos, mas não apagava de minha memória a minha imagem de anjinho com as nuvens sob meus pés. O retorno era tão ou mais cansativo, porque a descida exigia muito cuidado com os seixos rolando sob nossos pés. Não tinha asfalto como tem agora! A chegada no estacionamento, onde inúmeros ônibus especiais estavam, exigia atenção redobrada e a memorização do número do veículo, para evitar entrar no ônibus de outra região e gerar muita confusão no caminho de volta para casa. Felizmente, minha memória à época era excelente e eu gravava não apenas o nome da empresa, que estava estampado na lateral do ônibus, como também gravava o número do veículo e, pasme!, até da placa eu me lembrava. Sempre gostei de números, embora as letras tenham me conquistado e sigam comigo até hoje.
Nunca mais voltei à Serra da Piedade, depois de adulta, em companhia de minha mãe, e nem para uma romaria, mas ali estive em companhia de meu marido e para trabalho. Infelizmente, não me senti nenhum anjinho e tampouco subimos a serra. Ficamos no sopé mesmo, pois ali devíamos concentrar a nossa atenção.
Inúmeros outros lugares do passado permeiam minhas lembranças, mas por enquanto vou ficar por aqui, em Minas Gerais. Quem sabe eu me animo a contar sobre outras paragens no próximo mês?
Moba Nepe Zinid – 24 ago. 2026.

Amo seus contos!
Que alegria saber disso, meu adorável Dr. Caillaux!!
Envio-lhe (e aos seus) boas energias para esta semana!
Beijo no coração!
A recordação tem um poder de trazer para o presente fatos e momentos vividos que nos proporcionaram alegria ou trouxeram alguma aprendizagem. Muito interessante a recordação de lugares que cremos terem algo importante para nossa vida. Desperta a gratidão por constatar também a nossa evolução como seres humanos em todas as ordens, seja material ou espiritual.
Querida Valmíria,
uma alegria receber sua leitura e comentário neste meu espaço de reflexão!
Obrigada por participar de mais esta parcela de minha vida!
Gratidão sempre!
Envio-lhe e a toda sua linda família, boas energias!