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USE MÁSCARA

No livro “Discurso político“, Patrick Charaudeau (2018, p. 7), seu autor,  começa o prólogo com a seguinte frase “[a] máscara não é necessariamente o que esconde a realidade” e, claro, concordo plenamente com esse analista do discurso.

Conheci máscara na infância. Por causa dos bailes de carnaval. As pessoas colocavam máscara para se fantasiarem. Tinha de tudo. Essa tradição segue forte nos carnavais atuais.

As máscaras de Veneza passaram a ser adornos disputados e colocados em pontos de destaque em residências e estabelecimentos. E merecem! São, de fato, lindas!

Ser convidado(a) para um baile em que o traje fosse uma fantasia, implicava usar uma máscara – muito provavelmente – em acompanhamento às tradicionais vestes de super-heróis ou quaisquer personagens do cinema, TV ou HQ.

Mas não são apenas as máscaras para o uso lúdico que nos movem. Existem as máscaras, que são usadas pelos profissionais – da área de saúde e outros –, que são consideradas como Equipamento de Proteção Individual – EPI.

Uma desse tipo já cheguei a usar na época em que atuava na perícia: máscara de carbono, que me diziam iria evitar que os odores de cadáveres em decomposição afetassem meu olfato. Ledo engano! Apenas me asfixiava! Essa sim, praticamente tamponava meu nariz e boca e o ar passava com dificuldade por todo aquele aparato até chegar à minha via respiratória.

Ainda no prólogo da obra citada, o autor diz que “[a máscara] é símbolo da identificação, a ponto de nela se confundirem o ser e o parecer, a pessoa e a personagem”. Daí eu me lembrar que, para além das máscaras físicas, tem as metafóricas: pessoas que usam as máscaras sociais para seguirem com as suas vidas de forma impune frente às ações condenáveis que praticam. Seres humanos que traem, que furtam, que roubam, que lesam sem compaixão, que matam, mas fazem questão de manter a “fachada” de boas pessoas. Destas pessoas mascaradas nem se espera que vejam com bons olhos a frase que se lê nos letreiros dos ônibus (inter)municipais desde que se instaurou a pandemia (também) no Brasil: “USE MÁSCARA”.

E esse imperativo é necessário. É um elemento de soma que, para além de todas as demais medidas de segurança, é o mais fácil de ser obedecido. Basta escolher uma máscara e colocá-la sobre o nariz e a boca.

Com a pandemia, passei a entender do assunto. Sei escolher uma máscara de boa qualidade, que me protege e às pessoas no meu entorno, caso eu tenha que estar em um espaço público, como por exemplo, no dia de ir ao Posto de Saúde de meu bairro para receber a primeira dose da vacina. Tomei AstraZeneca. Feliz da vida! Usando a minha máscara pff2, mantendo distância das demais pessoas na fila. Ciente de que poderia ter reação após a vacina começar a agir em meu organismo, mas, acima de tudo, agradecida a Deus por estar viva.

Acredito que seja a mesma sensação de passageiros em uma viagem aérea depois de ouvirem as normas de segurança no início do percurso e, antes de chegarem ao destino, por algum problema mais sério na aeronave, as máscaras de oxigênio – realmente – caem diante dos olhos assustados de todos, que as tomam imediatamente e as colocam sobre o nariz e a boca. Interessante que não há nenhum questionamento nesse instante. Os passageiros sabem que não morrem se colocarem a máscara de oxigênio sobre o nariz e a boca. Obedecem sem questionar; sem fazer tipo “fortão” ou “super-homem”, sem se preocuparem se a máscara do outro é mais bonita ou mais feia que a dele ou a dela; se tem uma marca famosa estampada em algum ponto visível do aparato que salva vidas! E quando, finalmente, chegam ao destino, todos agradecem por estarem vivos!

Fico aqui, quietinha em minha casa, seguindo bravamente as regras do isolamento social, fazendo-me mil perguntas. Por que temos que ter tanta discussão com relação a algo tão simples quanto é o uso de uma máscara? Por que a população brasileira não poderia ter recebido máscara pff2 maciçamente, distribuída de forma gratuita, tal e qual se faz com os preservativos masculinos em período carnavalesco? Por que a vacina demorou tantos meses para começar a ser distribuída nos postos? Por que as campanhas de vacinação não foram de maior impacto? Por que as pessoas se mantêm cegas frente ao crescente número de mortos devido à pandemia? Por que as pessoas se negam (ainda) a receber a vacina? Por que as pessoas preferem os bandidos mascarados?

Não tenho todas as respostas. Tenho uma incredulidade gigantesca diante de muita coisa que vejo acontecendo em meu país – nunca pensei que veria – e, novamente, tenho que concordar com o analista do discurso já citado que, em sua sabedoria de pesquisador, diz que “[não] há mais oposição entre o verdadeiro e o falso, o autêntico e o artifício, o vivido e o representado”. O que acontece atualmente, portanto, é que as pessoas perderam os seus referenciais. Enxergam o mau, confundindo-o com o bom; as falsas notícias são tidas por verdadeiras; e o teatro da representação impera sobre o que de fato importa: a vida.

Moba Nepe Zinid – 25jun2021