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Biscoito erótico

Gosto de comer. Quem me conhece, sabe que é a mais pura verdade. Faz algum tempo que comecei a ir próximo à Feira dos Produtores, no Bairro Cidade Nova, às sextas-feiras pela manhã. Como vou para me iniciar na arte oriental do tai chi chuan, após a prática, bate aquela fome de um lanche e, óbvio, junto com o Mestre e, algumas vezes, com outras pessoas, que estiveram na mesma atividade, nós nos deslocamos em boa prosa até a citada feira.

Lá, costumeiramente, vamos para comer pastel numa loja de esquina, que fica – invariavelmente – cheia e, vez ou outra, optamos por ir à loja, também de esquina, especialista em pão na chapa, mas que tem um biscoito de queijo magnífico. É daqueles que vem assado, crocante e que nos faz encher a boca e até salivar.

O nome que está aí acima, no título, quem deu foi o Mestre, que foi também quem sugeriu que eu escrevesse algo sobre o dia do qual falarei na sequência. Bem, quanto ao nome, explico que é por causa do tamanho, formato, textura e, claro, da alegria com a qual o colocamos na boca e engolimos cada pedacinho.

Sobre o dia que me trouxe até este espaço de diálogo, foi precisamente o Dia do Trabalhador. Sim! Fizemos tai chi chuan nesse dia e, como de costume, fomos até a Feira dos Produtores. Somente nós dois: o Mestre e eu. Lá chegando, avisei que queria comer primeiro o biscoito e, depois, o pastel de queijo. Atendendo ao meu pedido, fomos inicialmente ao lugar que vende, em grandes quantidades, o pão na chapa, que é precisamente onde tem o biscoito de queijo, assado, crocante, delicioso.

Tão logo fomos nos aproximando, nós nos demos conta do quão cheio estava o lugar. Devido ao feriado, provavelmente, as pessoas se levantaram um pouco mais tarde (era perto das 10h) e, também, resolveram ir à feira, onde fizeram a paradinha estratégica para comer algo que é um verdadeiro almoço naquela loja: o pão na chapa.

Mas ali chegando, constatamos que sequer havia lugar para nos assentarmos e que as três atendentes estavam se desdobrando para dar conta de atender a todos; talvez umas quinze pessoas. Inesperadamente, o casal que estava rente ao balcão e à nossa esquerda, cedeu-nos o lugar, o que nos levou a pensar que haviam desistido, mas qual o quê! Foram para a extremidade em que fica a grande chapa na qual são preparados os pães com a farta fatia de queijo e, a depender do pedido, também se fazem acompanhar de ovo frito ali mesmo, junto ao caldo dos demais itens aquecidos na chapa.

Assim que nos assentamos, o tempo para observar o que se passava tanto dentro quanto fora da loja, parece que se esticou, pois a prosa do entorno ficou mais nítida aos meus ouvidos e, claro, o Mestre não deixava por menos: sugeria, a cada cena pitoresca, que viesse parar neste blog, o que prontamente acato neste breve relato.

Seis mãos não conseguiam atender e, simultaneamente, gerar satisfação na clientela ávida por comer o que ali se ofertava. Eu, um pouco ansiosa, observava o biscoito de queijo dentro da estufa de salgados e torcia para que ainda houvesse algum para minha degustação, quando chegasse a minha vez de ser atendida.

Uma das atendentes, se desdobrava em lavar a (pouca) louça do estabelecimento, para poder seguir atendendo. Com isso, copos ainda escorrendo água recebiam o suco e xícaras o café recém-coado, mas isso até ajudava a ralear um pouquinho o líquido escuro e quente, pois havia sido preparado para render muitos litros e ainda não havia terminado de escoar na máquina própria para tal.

Enquanto uma lavava a louça e, ao mesmo tempo, ia até o espremedor de laranja e preparava um suco, que era cobrado de uma cliente mais faminta que eu, a outra funcionária da loja a criticava, dizendo que se dedicasse exclusivamente a lavar a louça, para que houvesse vasilhame disponível para seguirem atendendo à freguesia, que só aumentava no espaço em volta e começava a tumultuar os corredores.

Uma terceira atendente dizia que o falatório dos clientes a estava confundindo e deixando com dor de cabeça. Sem comentários, já que ela não parava de falar também. A lavadora de louças dizia mais baixo que nem havia tomado café ainda. A mesma senhora que criticara a que lavava a louça e, igualmente, atendia à clientela, sugeriu que fizessem o atendimento de forma mais organizada e pela ordem de chegada.

Ao ouvir essa frase, não resisti e já investi no meu pedido: “Um suco de laranja e um biscoito de queijo!”; o Mestre trocou o suco pelo café recém-passado. Ambos tivemos que esperar copo e xícara serem lavados rapidamente e, na sequência, o lanche tão esperado chegou a nossas mãos.

O interessante foi observar que a atendente, que primava pela organização, seguia impondo ordem às demais. “Vamos atender de forma organizada; por ordem de chegada!”. Mas o fluxo seguia o seu natural, independente de haver – de fato – uma organização primorosa. Digo isso porque o casal, que cedera seu lugar para nós nos assentarmos, recebeu os respectivos pães na chapa, praticamente no mesmo instante em que eu dava a primeira mordida no meu biscoito de queijo, embora já estivessem ali, esperando atendimento, antes de chegarmos o Mestre e eu.

Enfim, o que destaco é o que vem a seguir: com o tempo de espera, acabei não ficando satisfeita comendo apenas um biscoito de queijo. Pedi o segundo que, por sorte, ainda estava disponível na vitrine de salgados. Tão logo saímos dali, fiz o que também tinha vontade naquela manhã do trabalhador: comi um pastel de queijo e bebi um cappuccino na outra loja da feira!

Uma manhã típica de uma sexta-feira atípica: feriado. Mas de muitas observações da alma humana e das “pequenas alegrias” com que a vida nos brinda! Saudemos o mês de maio!

Moba Nepe Zinid – 03 maio 2026.