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Enquanto a vacina não vem

Ai que saudades que eu tenho de esperar o sinal de pedestres abrir em frente à portaria da Amazonas para eu poder atravessar no tempo justo e, ao colocar o pé no passeio do Cefet I, sentir o motor de uma motocicleta bem pertinho de mim, arrancando para a lida do dia.

Entrar pela portaria da Amazonas depois de cumprimentar ali a Vânia, sempre sorridente. Logo em seguida, ver a gatinha preta com um passarinho preso na boca. Seguir o corredor de acessibilidade do estacionamento; este, normalmente cheio e com uma mistura de cores e marcas dos carros dos professores e dos técnicos administrativos.

Chegar ao burburinho no entorno ao Rango Rei, sentir o cheirinho do pão de queijo assando, do macarrão na chapa; ouvir o liquidificador batendo mais uma vitamina para alguém que curte alimentação saudável. Pedir uma tortinha de frango e comê-la aproveitando até os farelinhos na embalagem metálica. Pensar no lixo todo que geramos diariamente.

Ouvir a conversa alheia nas mesinhas plásticas, sempre ocupadas por mochilas ou pessoas: apressadas algumas, pois está na hora da aula; outras, nem tanto, porque já terminou a jornada apenas matinal.

Ver a fila do restaurante. Comprida. Barulhenta também. Subindo a escada. Seguir em frente. Ver a lojinha cheia de gente. Comprando utilidades ou mesmo inutilidades; enfim, movimentando o comércio daquela gente.

Passar em frente à fotocopiadora. Atendimento permanente? Parece ser… Sempre tem alguém de fora, às vezes fila e muito burburinho também, sobretudo em período de concurso ou de prova de final de semestre.

Olhar a porta do banheiro feminino e constatar, mais uma vez, a placa de interditado: está sendo lavado. Invariavelmente, no horário de almoço, não há como usá-lo. Seguir quase tocando os pés dos jovens do ensino médio, sentados ou deitados em frente à CEF e aos caixas eletrônicos. Celulares à mão, menos conversa e mais (des)informação. Perceber, antes mesmo de ver o elevador à direita, que ele está, mais uma vez, em manutenção: há um amontoado de jovens deitados no piso de acesso àquela área restrita. E se você insiste em ir naquela direção, já vão logo lhe avisando que “o elevador não está funcionando não!”.

Optar pela escada, passando por aquela área que mais parece quartinho de despejo de casa de antigamente. Sempre tem muita tralha, mas o caminho é curto ou pelo menos parece e ainda contribui para o exercício a subida de escadas, o que você faz sempre pensando em que cartaz vai ler na “vitrine” do DELTEC.

Tem menos pessoas nos corredores, parecem ter se espalhado, cada grupo no seu canto. Alguns em salas abertas para as aulas que vão começar; outros, nas rampas que pelo prédio há: namoram o que a adolescência lhes pode ofertar em termos de vida, descoberta, busca de experiências novas ou renovadas. Outros ainda permanecem no interior do restaurante. A comida há pouco ingerida os nutre e o espírito se fortalece nas amizades alimentadas com o bate-papo.

Mais um lance e você agora pode ler os cartazes do POSLING no vidro ou no mural. Importante se informar. Quem começou a subida até o quarto andar pela rampa ainda nem desponta, e você já ali está. O cheiro do almoço no quarto andar parece não se espalhar. Mas isso é bom, para os livros preservar. A biblioteca está aberta, pulsante. Há mais estudante naquele ambiente. A roleta não para de rodar: gente que chega, gente que sai. A paradinha para deixar os objetos guardados, a entrada providencial para a escovação dos dentes no banheiro que, normalmente, não tem manutenção no horário de almoço.

Hora da aula, estudantes e professores que chegam cada qual ao seu local de trocas: acadêmico-profissionais-pessoais. A hora do intervalo chega rápido se a aula é boa. Uma passadinha pela SRI para ver se há por ali estrangeiros, oportunidade de falar sobre algum país que você pode ou não conhecer. Trocas culturais ricas e proveitosas para todos. Outra descida até o Rango Rei. Mais tortinha ou pão de queijo. Se você for esperto, ciente de que nesse intervalo da tarde tem fila até mesmo na maquininha de self service, você já terá comprado o seu lanche e estará com o seu ticket na mão e conseguirá aproveitar bem o seu curto intervalo e, além de papear, poderá voltar à sala cumprindo bem o seu horário de lanche.

Nem sempre, nesse pequeno espaço de tempo, é possível ficar no bosquinho, área arborizada tão favorável à permanência para a prosa, devido aos banquinhos e mesinhas de alvenaria ali construídos. Espaço de namoros, de encontros e desencontros. Mas você pode pelo menos olhar se a pessoa que você procura para alguma troca de informação está por ali e, com isso, pode ver carinhas alegres, ouvir um pouco da conversa alheia e retornar para a sua lida.

O final da tarde parece voar. Com pouco você ouve todos se despedirem. Sente o cheiro do jantar. Decide se vai ficar para dele desfrutar ou se vai encarar o trânsito no horário de pique ao final do dia. Mais uma jornada acadêmica. Mais uma despedida. Até amanhã ou até semana que vem e bom fim de semana.

É disso tudo que sinto falta: de gente nesse espaço institucional. De darmos alma àquele corpo gigantesco que deixou de pulsar. De ver e ouvir de perto aos companheiros de curso, aos estudantes nacionais e internacionais. Abraçar os amigos, conversar com todos. Prosear rapidamente com os colegas, com os recém-conhecidos. Cumprimentar a todos, conhecidos ou não. Rir junto. Estudar junto. Aprender com alguém e tirar as dúvidas suas e as dos outros, olhando nos olhos. Respirar o mesmo ar. Sentir as experiências acontecendo coletivamente. Ensinar e aprender sentindo o cheiro uns dos outros. Ouvindo o sussurro. Percebendo as expressões. Mas enquanto a vacina não vem, resta a você, a mim, a todos nós, apenas (re)lembrar e ficarmos em casa, na frente do computador, teclando e rezando para tudo isso passar e retornarmos logo para o nosso segundo lar, porque é ali no Cefet I que passamos uma parcela considerável de nosso dia. É ali que temos iniciadas excelentes amizades. É naquele espaço que crescemos profissionalmente. É com nossas vivências e nesse lugar que construímos boa parte de nossa vida. Ai que saudades eu que tenho!