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“Esse pessoal é besta mesmo!”

Ouvi essa frase pouco depois de haver saído da padaria do meu bairro. Eu tinha atravessado uma rua e estava praticamente em frente ao ponto onde ficara por algum tempo um depósito de material de construção e, atualmente, uma loja vazia, aguardando locação concretizada.

Óbvio que, tão logo ouvi os dizeres, reconheci que partiram de uma senhora que se dirigira a mim. Pensei então com meus botões que era uma crítica direta ao fato de eu estar com a sombrinha aberta, sendo que apenas uns parcos chuviscos caíam; tanto que ela nem estava guarnecida com o aparato que também nos protege contra o sol escaldante do verão, escasso nos últimos dias.

Enfim, acreditando que pudesse ser uma crítica, preparei-me para não comentar nada, pois a opinião alheia sobre nós não deve ser contestada, sobretudo em plena rua. Aliás, somente ela caminhava na rua, enquanto eu seguia tranquilamente pelo passeio. Mas, de imediato, percebi que ela apontava para algo a minha retaguarda e, então, virei um pouco a cabeça e pude associar, desta feita, a frase dela à situação que, de fato, ela criticava.

A senhora apontava para um veículo popular estacionado rente ao meio-fio, com a frente em direção ao sentido ascendente da via, destacando-se imediatamente acima de seu teto, uma árvore com uma curvatura temerária em direção à rua e, além disso, as raízes perigosamente rompendo a estrutura de concreto do passeio sobre o qual ela despontara e crescera razoavelmente.

No período chuvoso no qual nos encontramos, com a alta incidência de acidentes, que são periodicamente relatados nos noticiários, acerca de quedas de árvores sobre veículos, postes etc., era mesmo algo na iminência de ali, naquele ponto, ocorrer. O risco era real: a árvore poderia terminar a queda já anunciada.

Diante da constatação, que também fiz após a sinalização daquela pessoa totalmente desconhecida para mim, procurei ser minimamente cordial ao comentário dela e interagi, falando exatamente sobre o fato de ser diariamente comentado sobre as constantes quedas de árvores na região metropolitana e do risco que aquela pessoa, que ali estacionara, estava a ele se expondo.

Seguimos caminhando ambas e, como estávamos em sentidos opostos, fomos nos distanciando uma da outra, o que findou com a prosa rápida, efêmera mesmo, mas que seguiu ecoando em mim, reverberando sobre a natureza humana. Tanto a da pessoa que fizera o comentário com tom pejorativo quanto daquela que expusera o veículo – seu ou de terceiro – ao perigo real.

É de fato interessante como nós, mineiros (falo de meu lugar de referência e conforto), temos esse hábito de dirigirmos a palavra a alguém totalmente por nós desconhecido. E sequer esperamos que haja uma resposta a nosso comentário; é como se estivéssemos pensando e verbalizando simultaneamente. Se a pessoa estranha responde, segue um diálogo sem maiores consequências, sem prosseguimento e vida que segue também.

Eu me peguei pensando se em outras culturas é assim também. Como algumas pessoas sabem, trabalho com o ensino de português para estrangeiros há mais de 25 anos e tenho uma curiosidade natural pela cultura do outro. Também fiquei pensando qual seria a reação de um de meus alunos se a fala daquela senhora tivesse sido dirigida a qualquer um deles. Gostaria de presenciar a reação das partes envolvidas.

Igualmente me questionei quais seriam as consequências de um encontro naquele momento da crítica expressa daquela senhora, com a pessoa que havia estacionado o veículo, caso esta última retornasse e fosse assumir o volante. Será que ocorreria uma conversa pacífica? Pelo fato de ser uma senhora, caso a pessoa responsável pelo estacionamento do veículo fosse mais jovem, será que a respeitaria, aceitando a crítica e respondendo que ficaria mais consciente do perigo de uma queda de árvore, como aquela especificamente, em condições visíveis de romper suas raízes, como pude observar no local?

Enfim, uma breve saída de casa, período chuvoso e tanta vida acontecendo, mesmo que passe despercebida aos olhos da maioria das pessoas…

MoBa NePe Zinid – 04 fev. 2026.