Ipê-roxo
Foi no primeiro dia deste mês que ele “me viu”. E eu coloquei entre aspas, porque é de um ipê-roxo que estou falando. Na verdade, quem tem a possibilidade de ter visto algo, sou eu. Mas vou começar a história do começo.
Tive uma prima com o nome coincidente com o título de uma música relativamente famosa e da qual eu gosto. Quem veio primeiro? A minha prima, que faleceu no último dia do mês passado aos 74 anos.
Ultimamente, quase não saio de casa dirigindo, mas para ir até o cemitério, onde seriam o velório e o enterro dela, acabei indo de carro, devido ao horário, logo depois do almoço, não oferecer tanto tumulto de excesso de veículos nas ruas e avenidas da cidade, a qual praticamente tive que atravessar, cortando por dentro de vários bairros a partir daquele em que vivo.
Como é comum acontecer a cada um de nós nessas ocasiões de perda de um familiar, fui tão meditativa para o cemitério, que acabei não o vendo na chegada, embora tivesse pisado sobre suas inúmeras flores caídas no piso da entrada daquele “repouso dos mortos”, que existe há muitos anos naquele bairro e, inclusive, tem nome idêntico e muito sugestivo para a ocasião.
Tendo chegado logo no início, tive a oportunidade de conversar com a irmã e depois com o irmão da falecida. Depois com vários outros primos de graus diversos. Cheguei a conhecer alguns que desconhecia até então.
O meu tempo de permanência foi o suficiente para ouvir a missa de corpo presente, que ali foi celebrada e, na sequência, ouvir, igualmente de forma atenta, as palavras de um pastor que dizia ter a minha saudosa prima se convertido no mesmo dia em que fez a passagem, o que era motivo para a alegria por ele expressada.
Também tive o privilégio de ouvir a leitura do texto escrito pela filha mais velha de minha prima, avó precocemente e, com isso, tendo dado o privilégio a minha prima de ser bisavó. Foram muito lindas as palavras dessa filha já chorosa pela perda da mãe querida. Notei que eram de fato saídas do coração. Trouxeram lágrimas aos irmãos, filhos e netos de minha prima que acabava de deixar esta vida.
Inclusive eu me emocionei e não quis esperar o momento derradeiro, quando a inumação de fato se efetivaria e, após as palavras amorosas da minha prima, que acabara de ficar órfã de mãe, saí me despedindo de uns poucos parentes, no intuito de retornar para minha residência.
Segui em direção ao portão principal e, levantando a cabeça nesse momento, já próxima da saída, eu o vi a “me observar”: exuberante, imponente, destacando-se contra o céu muito azul e invernal, ali estava o ipê roxo que contrastava seus inúmeros grupos de flores em tochas acesas contra o céu. Era dali que caíam as recentes desgarradas flores que eu displicentemente pisara ao chegar, sem sequer ter olhado para cima na ocasião.
Mas, na saída, ainda com olhos lacrimejantes, eu o olhei a me observar, sem ocultar-se, às escâncaras, para todos verem que ele via a mim e aos demais: os vivos e os mortos. Num lugar de tanto silêncio e seriedade, ele fazia seu barulho colorido, iluminando e contrastando a tarde ensolarada; ria dos passantes distraídos iguais a mim; zombava de minha ignorância quanto a sua majestosa presença, logo ao ali entrar.
Há que ser lembrado o fato de estarmos na estação do inverno, a qual favorece a floração dos inúmeros ipês distribuídos por ruas e avenidas da capital mineira, realizando um verdadeiro festival de flores roxas, rosas e, por fim, amarelas. Sei bem que temos também o ipê-branco, havendo alguns majestosos exemplares presentes próximos ao prédio da reitoria da universidade federal de nosso estado. Mas aquele ipê roxo ali, naquele local e naquele dia, tinha uma função diferente: a de dar cor e vida a um lugar naturalmente lúgubre e palco da morte.
Parei por alguns instantes. Fiz algo pouco comum de eu fazer: retirei meu celular de dentro de minha mochila. Abri a câmera e foquei em meu espião, aquele que ali estava a flertar comigo, com o meu descuido inicial, e o enquadrei. Não para criticá-lo ou mesmo elogiá-lo, mas para perenizá-lo junto à memória que dele, daquele dia e lugar, eu terei. Uma luz, uma alegria, uma certeza de uma cristalização do instante, enquanto todas as flores não se colocam à disposição dos meus pés e dos demais passantes, no chão sobre a eternidade dos que naquela necrópole são deixados.
Moba Nepe Zinid – 08 jul. 2026

Muito bom. Bela narrativa. Muito interessante. Parabéns. Laerte Temple
Estimado Laerte,
gratidão por suas amáveis palavras.
Envio-lhe boas energias.