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Lugares do passado (fora de Minas Gerais)

No mês passado, trouxe para este espaço de interlocução, alguns lugares do (meu) passado, todos eles em Minas Gerais e, para este mês, optei por trazer os que saíram dos limites das montanhas de meu estado.

O primeiro deles, como previsível, é uma praia no Espírito Santo. O mais legal desse passeio foi o fato de eu estar indo pela primeira vez à praia, já adulta, desacompanhada de minha mãe (meu pai já era falecido) e, por mais incrível que pareça, numa excursão do meu bairro, na qual não tinha ninguém do meu relacionamento mais próximo.

A minha primeira vez na praia foi inesquecível. Conheci a Praia do Morro. Tive companhias excelentes e muita fartura de comida, embora hoje eu creia que não teria a mesma empatia pelo programa de “bate-e-volta” que fizemos. Resumindo: fui uma “farofeira” de final de semana prolongado por um feriado qualquer, do qual não me recordo em absoluto, mas as fotos analógicas, que ainda guardo comigo, comprovam a permanência por quase quatro dias passeando pela orla, molhando apenas os pés e me agachando para jogar um pouquinho de água do mar no corpo, para colaborar com a cor que desejava alcançar em tão poucos dias.

O mais empolgante nessa liberdade num lugar desconhecido foram as paqueras! Eu nunca tinha sido tão bem acompanhada por rapazes, em minha própria cidade, como fui por lá! Os rapazes capixabas eram, de fato, muito empolgados por uma jovem sem bronzeado e, à época, muito magricelinha, extremamente tímida, mas com longos cabelos louro acastanhados (porque essa era a cor deles!) e olhos verdes muito brilhantes. Voltei com a sensação de que eu podia ter um namorado! Segui solteira por muito tempo ainda… Rs.

Ainda na costa brasileira, desfilando na orla, tive outra oportunidade de me sentir muito linda; foi em Salvador, na primeira vez em que ali estive. Dessa vez estava acompanhada por inúmeros colegas de trabalho e, com a ajuda de uma grande amiga daquela época, ficamos ela e eu hospedadas na casa de uma senhora – a quem ela chamava de madrinha – e, no deslocamento entre a residência onde nos hospedamos e o hotel onde estava sendo realizado o Congresso, que nos motivou a ir até lá, tive a oportunidade de ver mais de um soteropolitano de boca aberta a me admirar. Nunca mais vi isso! Rs.

Mas nem só de praias no litoral brasileiro se fazem as lembranças de lugares incríveis, que tive a oportunidade de conhecer na juventude, sozinha ou acompanhada. Por quase 6 meses eu vivi na Espanha, mais precisamente, em Salamanca, oportunidade que me levou a conhecer algumas cidades naquele país.

Cada uma dessas cidades, inclusive aquela na qual eu residi, tem a sua particularidade e me emocionou e segue emocionando até hoje, quando me lembro da alegria que sentia quando eu visitava uma delas e tinha a oportunidade de adquirir mais conhecimento cultural, conquistar novas amizades, como aquelas que firmei com dois companheiros da residência universitária (onde eu vivia), pois alugamos um veículo Citroën e fomos até Granada. Passamos um fim de semana lá. Foi fantástico!

Ainda na Espanha, quando tinha algum feriado, eu aproveitava para ir até uma agência de turismo, que ficava próxima à residência onde eu vivia, e adquiria algum pacote turístico para visitar alguma nova cidade no entorno ou mesmo mais distante, como foi durante o carnaval, em que pude conhecer Cádiz e me divertir com as fantasias que os espanhóis usavam e desfilavam pelas ruas da cidade portuária. Dias incríveis em que eu não me importava com nada além de viver intensamente o momento e a cultura local.

Semana Santa ainda nesse mesmo país: representações da época em que houve tortura a Cristo pelo povo romano. Retornei a Ávila especialmente para acompanhar um tipo de procissão que eu ainda não tinha tido a oportunidade de ver. Incrível como as imagens traziam expressividade e me impressionavam sobremaneira. Embora ainda numa época em que as fotos eram por filme (analógicas), consegui realizar um razoável acervo com essas imagens, que tanto me impactaram e que hoje, mais de uma geração completa desde aquelas cenas, ao rever o álbum onde está todo o acervo fotográfico montado àquela época (em torno de 400 fotografias!), voltam muitas emoções que tive a oportunidade de vivenciar sozinha e sem ter com quem compartilhar na maioria das vezes.

Toledo! Ah, Toledo! O famoso “déjà vu” de que tantos falam, aconteceu-me exatamente naquela cidade circundada por um rio… Até hoje eu me arrepio quando me lembro de que eu sabia exatamente onde estava o que eu buscava e o que eu encontraria adentrando por quaisquer ruas (ou ruelas) daquela cidade que eu visitava pela primeira vez… Pelo menos nesta vida, sim! Saí de lá com a sensação de que eu retornava a um lugar que conhecia muito bem! É algo verdadeiramente impressionante! De lá, tenho em meu poder ainda um lindo par de brincos adamasquinados em formato de beija-flores, que uso esporadicamente e com bastante cuidado, pois não podem com água. Hoje, ver esses brincos ainda presos ao suporte original, me leva de volta à cidade na qual os adquiri e sinto uma alegria indescritível.

Também estive em Madri por um final de semana e em companhia de uma professora da área de Enfermagem e que fazia o mestrado na mesma cidade em que eu ensinava a língua portuguesa pela primeira vez em contexto de não imersão (no exterior). Passeei na companhia dela por vários pontos turísticos e também pelos nem tão turísticos assim: supermercados populares, nos quais se pode comprar vinhos maravilhosos e a excelente preço! Sim! Quando morei na Espanha eu bebia vinho quase todos os dias… Rs.

Mas chegou, finalmente, o dia de retornar ao Brasil, onde o meu serviço me esperava, a rotina massacrante me aguardava, mas também aquele que viria a ser o meu marido. E, de volta a minha cidade natal, pude perceber o quanto me locupletava uma viagem internacional: a minha primeira de muitas, que ainda faria, sozinha ou acompanhada.

Essas outras viagens, que também me trazem tantas lembranças, posso vir contar neste espaço de compartilhamento, para expressar o quão importante pode ser sair do nosso lugar de conforto, da nossa redoma cultural, para nos expormos à cultura do outro, conhecendo novos e diversificados lugares para termos o que contar – não apenas para netos, pois este não é, especificamente, o meu caso –, mas para, principalmente, termos o que dividir de experiências, vivências e para dar a conhecer os nossos lugares do passado!

Moba Nepe Zinid – 16 set. 2026