Preparo
Essa palavra assim, sozinha, sem acompanhamentos gramaticais, pode ser entendida de várias formas. Mas a forma que me diz respeito, na situação vivenciada mais uma vez nesta semana, é aquela que pode ser precedida de um artigo: “O preparo”.
Mais uma vez porque o tratamento vem de uns três anos aproximadamente. O ultrassom das vias urinárias é aquele tipo de exame que, aparentemente, é simples e menos invasivo. Menos invasivo para quem? O tal do preparo – para mim – é um verdadeiro despreparo.
Sinto-me despreparada para andar nos longos corredores das clínicas com a bexiga cheia; desorientada para ler qualquer livro que esteja providencialmente dentro de minha mochila para ler enquanto espero o atendimento inicial e, igualmente, aos posteriores até a tão aguardada entrada na sala do US propriamente; desavisada para travar a saída da urina quando me autorizam a liberar um pouquinho para aliviar meu desconforto. Enfim, são tantos “des” que até me desespero, quase literalmente, no dia em que tenho que fazer esse exame.
Em termos de exame, muitos são constrangedores, desconcertantes mesmo, mas não chegam a me levar às lágrimas e aos arrepios de nervoso ou estresse, como o US das vias urinárias. O fato é que o tal “preparo” não tem nada – nadica de nada – de complicado. Não é nem perto daquele que se faz para uma colonoscopia, graças a Deus!
Mas a colonoscopia tem uma vantagem em relação ao que venho fazendo com uma periodicidade semestral agora: ela tem seu preparo no conforto do lar – Deus nos livre se não fosse! – e, quanto ao exame propriamente, tão logo recebemos o anestésico de forma intravenosa, apagamos; voltamos à real quando já aconteceu o que tinha que acontecer.
Já o US das vias urinárias… O preparo começa um tempinho antes da chegada à clínica e, quando chegamos, já estamos andando mais devagar, com um medo enorme de tossir ou espirrar e a bexiga explodir e o piso da recepção ficar inundado de urina.
Quando se consegue, na recepção, pegar a senha sem nenhum vexame, temos que pedir arrego se a situação se mostra começando a querer sair do controle; é a hora de implorar à recepcionista para se esvaziar um pouquinho a bexiga, senão pode ser quase certa a necessidade de um retorno noutro dia.
Autorizado o ligeiro esvaziamento, pedido discretamente, mas concedido para toda a galera das cadeiras, que aguarda a chamada da respectiva senha, escutar, vai-se caminhando igual às grávidas na fase final da gestação. Isso mesmo! E não importa se você é homem ou mulher, jovem ou idoso(a); a criticidade da situação iguala a todos.
Ciente do vexame em vias de se concretizar, você, milagrosamente alcança a porta do banheiro, mas para sua desagradável surpresa, tem fila! Exatamente! Fila na porta de banheiro de clínica onde se precisa dar uma esvaziada estratégica na bexiga.
Assim, meio se arrastando e com as pernas ligeiramente abertas, a coluna um pouco curvada (deve ser o peso da bexiga em vias de explodir!), numa voz que nem parece a sua, dirige-se à pessoa que – provavelmente – está numa situação semelhante à sua, para perguntar se está aguardando o banheiro feminino desocupar.
A pessoa que está ali esperando para fazer o mesmo que você deseja ansiosamente fazer, parece ler seu pensamento ou a angústia que você tem estampada no rosto e vai logo lhe apontando a porta do banheiro masculino aberta e lhe diz sem nenhuma cerimônia que, se chegar algum homem, avisa que entrou uma pessoa com mais urgência.
E você entra, sem nenhum pudor, sem medo de ser criticada, censurada, xingada mesmo, ou seja lá o que for. Você só tem olhos para o vaso sanitário, sua maior e melhor salvação naquele instante crucial. Você consegue se espremer no cubículo e fechar a porta atrás de si. Sente que vai conseguir aliviar o desconforto da bexiga excessivamente cheia. Ao mesmo tempo, um enorme temor lhe toma: será que vai conseguir liberar só um pouquinho da urina?
Você se prepara e começa calculadamente a soltar um pouquinho, o que é até favorecido, de certa forma, pelo próprio organismo. Mas chega um momento em que se é tomado(a) por uma vontade incontrolável de liberar tudo e mandar aquele exame para os quintos dos infernos. Depois desse perigoso pensamento, a criança que ainda mora em você desiste, assim que se lembra que se não resolver logo a pendência naquele dia, terá que voltar noutro e passar por tudo aquilo outra vez; então é melhor que seja naquele dia mesmo, naquele aqui e agora.
Dominando-se e, de uma certa forma, até sentindo um certo orgulho de si mesmo(a), pensando que não fez nenhum “show”, você se sente poderoso(a) e retorna com ar triunfante para a sala onde estão os demais pacientes à espera da chamada pelo código que receberam a título de “senha” na recepção. Lembrando-se do tempo que demorou na manobra do esvaziamento com (auto)controle, você retorna à recepção e pergunta gentilmente se porventura sua senha foi chamada e ouve a jovem lhe dizer que é para aguardar que vão chamar a sua.
Olhando para o painel eletrônico por alguns minutos e sem ânimo para retirar seu livro da mochila, você vai percebendo uma série de códigos diferentes do seu serem colocados no painel luminoso e nada de o seu aparecer. Os minutos vão se escoando lentamente… Único lugar – atualmente – em que o tempo parece não passar muito rápido. A bexiga começa a aumentar de volume novamente e parece que você nem a esvaziou.
O quadro inicial que você tinha ao chegar uns 10 minutos antes retorna e parece ter ainda mais intensidade. Você começa a suar frio. A não ter posição confortável para as pernas. Começa a ter inveja dos pacientes que estão ali só para fazer raio X. Pode? E nada de sua série alfanumérica ser contemplada.
Não tem outro jeito! Você vai ter que pedir arrego mais uma vez! Levanta-se ainda mais devagar e com receio de que algo trágico possa lhe ocorrer: cair alguma coisa no chão e você ter que se dobrar para pegar e a bexiga forçada impulsionar todo seu volume para o caminho certo: sua roupa!
Assim que você chega perto da mesma mocinha, ela já olha com aquela expressão de tristeza e, provavelmente, pensando: “Tadinha! Tomara que chamem logo a senha dela!”. Por sorte, se foi esse o pensamento da jovenzinha, ele foi plenamente atendido, pois você escuta nitidamente o seu nome sendo falado erroneamente e pensa com seus botões: “Nunca tive nada de beata!”.
Ao ser chamado(a), você faz um giro suavemente e se dirige ao guichê para assinar o documento e receber os seus que ficaram na recepção e, depois, foram para onde você se dirigiu. Depois que você assina, novamente lhe pedem que aguarde ser chamado(a) pelo nome.
Sendo o seu dia de sorte, você nem precisará se assentar novamente, pois a auxiliar do médico responsável pelo exame terá encaminhado você para a sala onde o US será realizado. É o momento estratégico em que você, antes de ter algum “piripaque”, pede, com a sua melhor cara de pedinte, se pode esvaziar a bexiga um pouquinho. E você faz isso com uma cara de inocente também, como se não houvesse liberado nada ainda. É comum que a atendente deixe, com a ressalva de que você não pode deixar sair grande quantidade, pois o exame será feito daí a instantes.
Com um pouco mais de sorte ainda, você consegue liberar só um pouco, desde que com um excelente autocontrole e, tão logo o médico chega, depois que a atendente fez a parte do preparo “in loco” para a passagem do gel e respectivo aparelho, você faz igual a toda criança, que é choramingar que sua bexiga está cheia e você está até se sentindo mal (o que é verdade, em relação a instantes antes).
Normalmente, o médico faz então o que você mais quer, diz que vai começar o US pela bexiga e que, assim que ele fizer as imagens dela, você pode ir ao banheiro – rapidinho – para esvaziar a bexiga. Tudo bem, que é o que você de fato anseia, mas rapidinho é impossível, pois sua bexiga está ainda em sua capacidade máxima; o próprio médico ao fazer a imagem, constatou que o armazenamento deve ser em torno de um litro.
Um litro como? Você fica ali, liberando na lentidão costumeira, quando está de fato com a bexiga muito cheia, pensando em como conseguiu reunir tanto líquido daquele jeito se só bebeu 800 mililitros? Finalmente, quando pensou que o médico bateria à porta para saber se estava tudo bem com você, consegue sair com a melhor cara do mundo e o restante do exame transcorre numa alegria interna que deve até ser vista nas imagens do aparelho à frente do médico.
Assim que ele termina as passagens do cursor com gel, informa que você pode se limpar com os próprios papéis que estavam ali no entorno a sua roupa. Antes, lhe davam mais papel, mas está tudo bem assim mesmo! Afinal, depois de tanto preparo, que mal há em um lugar despreparado para atender à limpeza do gel que foi usado no corpo do paciente?
MoBa NePe Zinid – 11 mar. 2026

Que texto sagaz, Monica! Ri na hora da beata (coisa de quem já passou por sofrimentos parecidos na pronúncia do nome), e me compadeci de você e de todas que precisamos fazer esses exames todos…
Querida Nássara,
que bom que, mesmo distante, a fiz rir! É sempre uma alegria receber esse “feedback” de quem lê o que escrevo, pois me motiva ainda mais a fazer esses meus pequenos relatos do cotidiano nada complexo que tenho vivido por aqui e que, entretanto, sensibiliza as pessoas por termos experiências em comum.
Envio-lhe e aos seus boas energias na sequência da semana e dos dias!
Abraço saudoso!
Que belo texto, Mônica! Me identifiquei totalmente! E ainda tem a parte de, quando enfim começa o exame e o aparelho começa a passar sobre a sua bexiga, aí que você mais tem medo de que ela exploda ali mesmo, na maca do exame! E o médico ainda comenta “nossa, está cheia mesmo, tadinha” kkkk é sempre bom ler seus textos que trazem a leveza do cotidiano não tão leve que vivemos todos os dias! Adorei! E o beata foi sacanagem mesmo também kkkk
Querida Élida,
tantos elogios vindos de uma jovem e brilhante escritora, fazem-me vislumbrar um caminho promissor como cronista!
Sou grata por você se manter firme e forte na leitura de meus singelos textos, relatos/retratos de meu cotidiano
nem um pouco diverso daquele que milhares de pessoas vivem por este mundão afora!
Envio-lhe e a sua família boas energias e aguardo vocês em breve para um próximo lançamento presencial!